O filme Lucy me levou a pensar em mim e na humanidade com nossa falsa expectativa de que podemos dar conta de tudo. De um jeito ou de outro achamos que podemos desvendar todos os mistérios, prever todos os erros e acertos, descobrir tudo que há de melhor - foi aí que eu me identifiquei.
Sempre que eu descubro uma banda/grupo musical novo e de qualidade, eu fico muito feliz e pensando que a próxima banda está a apenas uma combinação de dígitos de mim. Logo ali na barra de pesquisa do Youtube. Mas quais serão as letras certas? Qual será o próximo nome que aconchegará minha alma com suns melodias?
Eu penso que posso dar conta de tudo, que um dia talvez, com um pouco de criatividade e sorte, eu posso digitar letras que se combinem, e então o youtube me sugerirá um nome e voilá! Eu nao me cansarei das músicas que ouço porque não precisarei ouví-las incessantemente. Eu conhecerei todas as bandas legais! Só que não.
Eu não conhecerei todas as músicas boas, ainda que tenham sido inspiradas por Deus, assim como o homem não desvendará todos os mistérios através da ciência. A medicina não será capaz de produzir uma "bala de prata". As pedras não contarão toda a história para os arqueólogos e geólogos. Mas as pedras falarão, o Espírito Santo distribui o dom de cura e Deus quer nos dar um cântico novo.
Enfim, dentro do contexto que estamos falando, é preciso reafirmar que não conheceremos todas as coisas. E que bom que é assim! Porque a exemplo de Lucy, no filme, nós por termos sido corrompidos, não temos condições para sermos o máximo que deu nos criou para (ou seja, usar 100% do cerebro) e não temos estrutura para conhecermos todas as coisas. E por outro lado, como mostra o filme, aquele que sabe todas as coisas está em todos os lugares, com tudo sob controle, e este é Deus. Não pode ser o homem, porque o homem já teve o governo de tudo que há no mundo, mas o entregou quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.
"Porque, em parte, conhecemos, e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado. (...) Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido." I Coríntios 13:9-12
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
O Sopro e a Gota
Em novembro desse ano eu tive a oportunidade de conhecer uma caverna na região da Chapada Diamantina. Na verdade o local é chamado de gruta, gruta da Lapa Doce. É um lugar verdadeiramente incrível! Dizem os geólogos, e demais cientistas responsáveis por esse tipo de pesquisa, que a caverna já fez parte do oceano antes mesmo de haver vida na Terra, depois o nível do oceano abaixou e então começou a surgir a vida.
Lá é um local cheio de estalactites e estalagmites, as formações rochosas são belíssimas e fascinantes pela riqueza histórica que carregam em cada traço sinuoso. Não é um local apertado e sufocante, mas sim com salões enormes que forjam em você o mesmo ritmo lento com o qual o tempo se passa lá, pois assim como um centímetro de estalactite cresce a cada 30 anos, seu corpo leva longos minutos para absorver aquele local, e seu olhar se demora em longos percursos por tantos desenhos, cores (duvidosas), formas e espessuras, com o espanto da boca aberta, com o suspiro que o oceano parece ter se encarregado de ceifar, ainda que há muito tempo já tenha abaixado.
Após vermos muita coisa, mas com certeza não o suficiente naquela uma hora de visita, o guia nos conduziu a uma experiência tão simples, mas com tanta expressividade e potencial para produção de significados. Ele direcionou todo o grupo que estava com ele a sentar-se sobre algumas pedras em uma lateral da grande caverna, e fez sinal (uma combinação de movimentação da lanterna e assobio) para o guia que vinha atrás de nós silenciar o grupo que vinha com ele. Feito isso, nós também nos silenciamos e apagamos nossas lanternas.
Tudo mudou. A caverna era outra. A escuridão era tão forte que não havia maneira dos meus olhos se acostumarem a ela. Nenhuma luta ali era possivel para alcançar a imagem do que quer que seja. Estavam totalmente impotentes, nada lhes alcançava. Nenhuma sombra restava. Nenhuma forma se apresentava. E por mais que eu soubesse que ainda estava coberta por aquelas rochas suntuosas, sentia tudo tão distante de mim, como se não houvesse mais nada e tudo tivesse ido embora ou talvez eu tivesse ido embora. Talvez eu tenha experimentado a prisão, quando tudo está próximo mas não ao seu alcance, e você está vivo mas ausente, de alguma maneira morto, de todas as formas impotente (quando não há o Espírito). E só resta a esperança de que a luz novamente se acenda.
Mas opondo-se à escuridão imperativa havia algo que marcava presença de maneira firme e delicada. Eram as gotas. As gotas daquelas estalactites, lembra? Elas eram tudo, eram toda a caverna. Como eu não ouvi, como eu não pude perceber antes o movimento e a voz daquele elemento que engendra formas tão maravilhosas naquele lugar? E então o que parecia ser perda (o fracasso da visão) foi o que proporcionou o despertar de um corpo inteiro - ouvidos, pele para sentir a umidade e a temperatura do ar, nariz para conhecer não o ar "vazio" mas a alquimia do conjunto de corpos que ali se encontrava e da água calcária que se lançava num trabalho quase infinito.
E o que as muitas gotas aqui e ali me disseram? Com certeza falavam de algo que eu não podia compreender - a força magnífica que move o mundo. A natureza só sabe falar disso. E é um assunto maravilhoso, que rende por eras, tantas quantas existirem. As gotas levaram meu pensamento longe, muitos séculos atrás, a um sujeito chamado Elias, que era profeta numa terra de prostituição.
Se eu tivesse fugido e estivesse na mesma situação dele (I Reis 19:9-11), eu pensaria que estava tudo acabado, aliás, pior do que isso: Deus quer acabar comigo. Já era. Tudo o que eu fiz, as possibilidades que haveriam daqui pra frente já não são mais. Mas então o vento passou, um terremoto passou, um fogo... E nada. Nada aconteceu. Nada mudou. Elias continuava vivo. Mas no silêncio houve um sopro, que chamou Elias para fora, para continuar, perguntando: "Que fazes aqui, Elias?".
Fico pensando se essa pergunta que Deus fez para Elias não foi como a gota na caverna sem iluminação. Porque apesar do furacão, do terremoto, do fogo, dos fenômenos grandiosos, o que convocou Elias foi uma voz - a voz de Deus. O que despertou e moveu Elias como um todo/com todo o corpo foi a pergunta certa da pessoa certa. Quando o espetáculo de força e poder da natureza cessou (quando tudo se apagou e silenciou na caverna), Elias pôde atentar para o que importa (ele pôde ouvir a gota, o detalhe de máxima importância que está na origem e no desenrolar de toda obra realizada até ali, de toda estalactite e estalagmite). "Que fazes aqui, Elias? "
Será que essa pergunta hoje não serve para você e para mim? Muitas vezes nos "perdemos", ou talvez, melhor dizendo, nos distraímos com ventos que prometem nos arrasar, destruir com tudo, deixamo-nos amedrontar com situações que querem nos sacudir... Paralisamos diante de coisas que parecem sensacionais - uma nova tecnologia, um novo esporte, um carro novo, um salário melhor - e esquecemos da obra que Deus começou e só ele pode terminar. O que parece ganho, lucro, vantagem, se torna perda pois deixamos o que verdadeiramente nos desperta - desperta nosso corpo, desperta a vida.
Será que nessa vida moderna e agitada que levamos, nossos "olhos" não tem estado muito ansiosos por absorver tudo ao nosso redor - todas as formas e cores - mas no entanto estamos deixando de reconhecer o que está na nossa origem - o sopro de vida? Ou então estamos tão ocupados com a nova temporada daquela série super legal, que o chamado *gota* do nosso amigo pra uma tarde com ele passa totalmente despercebido. Aquilo que nos cerca e parece magnífico pode estar apenas roubando nosso fôlego, trazendo espanto não de admiração, mas de medo. Quando tudo se apagar e silenciar haverá ainda tempo e condições de ouvir *a gota e o sopro*, perceber e responder o que realmente importa? Se houver, que bom. Ainda assim, eu te aconselho a não esperar por esse momento, mas continuar no direcionamento de Deus. E você precisa saber que haverá um tempo em que não restará gota ou sopro, mas só escuridão, porque existe uma hora para todo o plano de Deus se completar - o tempo em que a estalactite e a estalagmite se juntam - novos céus e nova terra.
Você sabe o que faz na sua casa? Você sabe o que está fazendo com a sua família? Você sabe o que faz no seu trabalho? O que fazes aqui?
Quando Elias ouviu a voz de Deus, aí sim houve mudança. A caverna era outra. Aliás já não havia mais caverna para ele, mas um caminho.
Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 2014.
Lá é um local cheio de estalactites e estalagmites, as formações rochosas são belíssimas e fascinantes pela riqueza histórica que carregam em cada traço sinuoso. Não é um local apertado e sufocante, mas sim com salões enormes que forjam em você o mesmo ritmo lento com o qual o tempo se passa lá, pois assim como um centímetro de estalactite cresce a cada 30 anos, seu corpo leva longos minutos para absorver aquele local, e seu olhar se demora em longos percursos por tantos desenhos, cores (duvidosas), formas e espessuras, com o espanto da boca aberta, com o suspiro que o oceano parece ter se encarregado de ceifar, ainda que há muito tempo já tenha abaixado.
Após vermos muita coisa, mas com certeza não o suficiente naquela uma hora de visita, o guia nos conduziu a uma experiência tão simples, mas com tanta expressividade e potencial para produção de significados. Ele direcionou todo o grupo que estava com ele a sentar-se sobre algumas pedras em uma lateral da grande caverna, e fez sinal (uma combinação de movimentação da lanterna e assobio) para o guia que vinha atrás de nós silenciar o grupo que vinha com ele. Feito isso, nós também nos silenciamos e apagamos nossas lanternas.
Tudo mudou. A caverna era outra. A escuridão era tão forte que não havia maneira dos meus olhos se acostumarem a ela. Nenhuma luta ali era possivel para alcançar a imagem do que quer que seja. Estavam totalmente impotentes, nada lhes alcançava. Nenhuma sombra restava. Nenhuma forma se apresentava. E por mais que eu soubesse que ainda estava coberta por aquelas rochas suntuosas, sentia tudo tão distante de mim, como se não houvesse mais nada e tudo tivesse ido embora ou talvez eu tivesse ido embora. Talvez eu tenha experimentado a prisão, quando tudo está próximo mas não ao seu alcance, e você está vivo mas ausente, de alguma maneira morto, de todas as formas impotente (quando não há o Espírito). E só resta a esperança de que a luz novamente se acenda.
Mas opondo-se à escuridão imperativa havia algo que marcava presença de maneira firme e delicada. Eram as gotas. As gotas daquelas estalactites, lembra? Elas eram tudo, eram toda a caverna. Como eu não ouvi, como eu não pude perceber antes o movimento e a voz daquele elemento que engendra formas tão maravilhosas naquele lugar? E então o que parecia ser perda (o fracasso da visão) foi o que proporcionou o despertar de um corpo inteiro - ouvidos, pele para sentir a umidade e a temperatura do ar, nariz para conhecer não o ar "vazio" mas a alquimia do conjunto de corpos que ali se encontrava e da água calcária que se lançava num trabalho quase infinito.
E o que as muitas gotas aqui e ali me disseram? Com certeza falavam de algo que eu não podia compreender - a força magnífica que move o mundo. A natureza só sabe falar disso. E é um assunto maravilhoso, que rende por eras, tantas quantas existirem. As gotas levaram meu pensamento longe, muitos séculos atrás, a um sujeito chamado Elias, que era profeta numa terra de prostituição.
Se eu tivesse fugido e estivesse na mesma situação dele (I Reis 19:9-11), eu pensaria que estava tudo acabado, aliás, pior do que isso: Deus quer acabar comigo. Já era. Tudo o que eu fiz, as possibilidades que haveriam daqui pra frente já não são mais. Mas então o vento passou, um terremoto passou, um fogo... E nada. Nada aconteceu. Nada mudou. Elias continuava vivo. Mas no silêncio houve um sopro, que chamou Elias para fora, para continuar, perguntando: "Que fazes aqui, Elias?".
Fico pensando se essa pergunta que Deus fez para Elias não foi como a gota na caverna sem iluminação. Porque apesar do furacão, do terremoto, do fogo, dos fenômenos grandiosos, o que convocou Elias foi uma voz - a voz de Deus. O que despertou e moveu Elias como um todo/com todo o corpo foi a pergunta certa da pessoa certa. Quando o espetáculo de força e poder da natureza cessou (quando tudo se apagou e silenciou na caverna), Elias pôde atentar para o que importa (ele pôde ouvir a gota, o detalhe de máxima importância que está na origem e no desenrolar de toda obra realizada até ali, de toda estalactite e estalagmite). "Que fazes aqui, Elias? "
Será que essa pergunta hoje não serve para você e para mim? Muitas vezes nos "perdemos", ou talvez, melhor dizendo, nos distraímos com ventos que prometem nos arrasar, destruir com tudo, deixamo-nos amedrontar com situações que querem nos sacudir... Paralisamos diante de coisas que parecem sensacionais - uma nova tecnologia, um novo esporte, um carro novo, um salário melhor - e esquecemos da obra que Deus começou e só ele pode terminar. O que parece ganho, lucro, vantagem, se torna perda pois deixamos o que verdadeiramente nos desperta - desperta nosso corpo, desperta a vida.
Será que nessa vida moderna e agitada que levamos, nossos "olhos" não tem estado muito ansiosos por absorver tudo ao nosso redor - todas as formas e cores - mas no entanto estamos deixando de reconhecer o que está na nossa origem - o sopro de vida? Ou então estamos tão ocupados com a nova temporada daquela série super legal, que o chamado *gota* do nosso amigo pra uma tarde com ele passa totalmente despercebido. Aquilo que nos cerca e parece magnífico pode estar apenas roubando nosso fôlego, trazendo espanto não de admiração, mas de medo. Quando tudo se apagar e silenciar haverá ainda tempo e condições de ouvir *a gota e o sopro*, perceber e responder o que realmente importa? Se houver, que bom. Ainda assim, eu te aconselho a não esperar por esse momento, mas continuar no direcionamento de Deus. E você precisa saber que haverá um tempo em que não restará gota ou sopro, mas só escuridão, porque existe uma hora para todo o plano de Deus se completar - o tempo em que a estalactite e a estalagmite se juntam - novos céus e nova terra.
Você sabe o que faz na sua casa? Você sabe o que está fazendo com a sua família? Você sabe o que faz no seu trabalho? O que fazes aqui?
Quando Elias ouviu a voz de Deus, aí sim houve mudança. A caverna era outra. Aliás já não havia mais caverna para ele, mas um caminho.
Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 2014.
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